7. O que fazer de Jesus

Domício Pereira de Mattos


Mateus 27:22; ”Replicou-lhes Pilatos: Que farei, então,
de Jesus, chamado Cristo?”
Pregação feita nas celebrações litúrgicas da Semana Santa,
na Sexta-feira da Paixão.

Emile Faguet, celebrado escritor francês, falecido em 1916, crítico e autor de livros, entre eles “O Culto da Incompetência” e “Horror da Responsabilidade”, criticou a sociedade de seu tempo, afirmando ser sua característica o que estava posto nos títulos desses livros: incompetência e horror de responsabilidades... Parece não ter havido muita mudança no comportamento social, sendo ainda hoje aquelas as características da sociedade humana: muita incompetência e falta de responsabilidade. Ninguém quer saber de assumir seus atos, principalmente quando postos à prova como, por exemplo, perante uma Comissão de Inquérito. A corrupção campeia por todos os lados, mas ninguém assume, são todos”inocentes”, mesmo diante de provas concretas... É o horror da responsabilidade!

Pilatos, então, é um pecador comum, procedeu como a maioria dos que se escondem atrás de desculpas, falsas afirmações e mentiras deslavadas...O pobre governador da Judéia viu-se diante de Jesus, com a responsabilidade de julgá-lo, libertando-o ou condenando-o. Tratou de fugir da responsabilidade: primeiro, insistindo na inocência do acusado; em seguida, tentando transferir a responsabilidade para os ombros de Herodes; depois lembrando-se do costume de soltar um preso por ocasião da Páscoa, colocou perante os acusadores (sacerdotes judeus, escribas, fariseus e uma multidão incitada por estes) o mais temível preso, ladrão, homicida, arruaceiro, chamado Barrabás. Perguntou: “a quem quereis que vos solte, a Barrabás ou a Jesus, chamado o Cristo?” Surpreendeu-se com a resposta: “Solta-nos a Barrabás!” Insistiu ainda:” E que farei com Jesus?!” Exigiram a pena máxima:

“Seja crucificado!” Finalmente, pediu água e lavou as mãos, como se com isso ficasse isento de culpa na condenação do homem justo e bom, chamado Jesus de Nazaré...Não pode fugir da responsabilidade. Ninguém pode! O interessante é que Jesus já havia afirmado: "Quem não é por mim é contra mim! Não existe neutralidade no julgamento a respeito de Jesus. A pergunta tem que ser respondida: “Que farei de Jesus, chamado o Cristo?” Pilatos, na tentativa da neutralidade, começou a ouvir vozes, as quais soprando feriam a sua consciência. Que vozes eram essas?

Primeira, A voz do dever. Esta lhe mostrava a beleza daquela personalidade a ponto de fazer o governador da Judéia impressionar-se com a figura sublime de Jesus. Convencera-se da sua inocência e cada vez mais forte esta voz dizia à sua consciência: Você tem o dever de soltar Jesus!

Segunda, A voz do poder. Esta lhe dizia: “Você pode!” Tinha poder para decidir e chegou a declarar a Jesus: “Não sabes que tenho poder para te soltar ou para te condenar?” Resposta de Jesus: “Nenhum poder terias se de cima não te fosse dado.” (João 19:10 e11) Deus dá a todos esta capacidade para decidir – ou a favor ou contra. Em face de Jesus você não pode ser neutro, é preciso decidir: aceitá-lo ou rejeitá-lo. Ali estava Pilatos balanceado pela sua própria consciência: Eu posso! Eu devo soltar esse homem inocente!... Entretanto, Pilatos entregou Jesus para ser crucificado.Pior, antes de entregá-lo, para agradar os judeus, mandou que seus cruéis soldados o torturassem... Ficou marcado como símbolo da covardia e da pusilanimidade. O que teria acontecido com Pilatos? Deixou-se levar por outras vozes que também ecoaram e lhe falaram, provavelmente com mais força, abafando as vozes que tentavam iluminar a sua consciência. Que vozes foram essas?

Terceira, a voz do interesse. Pôncio Pilatos não queria comprometer-se. Buscava fazer-se amigo do povo e queria ser amigo de César. Para ser amigo de César tinha que agradar o povo sob o seu governo (tetrarca, representante do Império Romano). Os chefes religiosos exploraram este sentimento egoísta de Pilatos e fizeram-se hipocritamente amigos de César.

O governador, se soltasse Jesus estaria contra César...

Quarta, a voz das autoridades religiosas. Lá estavam instigando o povo, fazendo insinuações. Pilatos deixou-se levar... As autoridades e guias religiosos dos judeus (sacerdotes, escribas e fariseus) vinham de longe perseguindo Jesus, buscando apanhá-lo em palavras, gestos e atitudes, Colocaram espias ao seu encalço e exigiram relatório. Este foi o mais imparcial testemunho a favor de Jesus! “Homem nenhum jamais falou ou procedeu como este Jesus de Nazaré” (João 7:45-47). Diante de Pilatos essas autoridades acusavam Jesus de atitudes políticas contra César e amedrontaram-no... ”Se soltas a este não és amigo de César!...”

Quinta, a voz da multidão. Esta gritava: Solta-nos Barrabás e Jesus seja crucificado! É muito difícil postar-se contra multidões, especialmente quando conduzidas por autoridades políticas ou religiosas mal intencionadas... Pessoa inocente pode ser trucidada pelos gritos de multidão desvariada pedindo o linchamento. Foi exatamente o que aconteceu, abafando completamente em Pilatos a voz da consciência que lhe mostrava o poder e o dever de ficar ao lado de Jesus...

Sexta, a voz da mulher: “Não te envolvas com este justo, pois em sonho muito sofri a seu respeito”. Muita gente pensa que a mulher de Pilatos estava do lado de Jesus. A Igreja Ortodoxa chegou a canonizá-la... Não. Ela estava do lado de Pilatos. Pedia que ele não se envolvesse, isto é, ficasse neutro. Empurrou-o ainda mais para esta ingrata posição de neutralidade... Mas a pergunta estava posta: “Que farei de Jesus, chamado Cristo? xxxxxx Neutralidade impossível: ou o soltava, livre, ou o entregava para ser crucificado...

Sétima, a voz do medo. Esta voz levou-o a praticar o ato mais ingênuo e simplório: lavou as mãos! Um teólogo disse que foi esse gesto que sujou a biografia de Pilatos...Por lavar as mãos ficou sujo e entrou no Credo dos Apóstolos como o responsável pela crucificação e morte de Jesus: lá está escrito: “...padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos!

Pobre Pilatos, não pôde escapar da pergunta que ele mesmo fez: “Então que farei de Jesus, chamado o Cristo?” Diz a tradição que Pilatos acabou perdendo o poder. Deposto foi desterrado e no exílio foi acometido de doença a que se chamou “comido pelos bichos”. Comido, em vida, por vermes da morte. Nesse sofrimento terrível e final sua mente explodia com a pergunta: “Que farei eu de Jesus chamado Cristo?!” Era tarde demais, não podia fazer mais nada! Entregue para ser crucificado Jesus morreu na cruz a fim de salvar os pecadores... Amor infinito capaz de alcançar todos pobres e miseráveis pecadores como Pilatos que o entregou para ser crucificado ou como Judas que o traiu. Se eles, Pilatos e Judas, no fim da miserável existência, tiveram noção desse poder salvífico de Jesus, não sei... Uma coisa eu sei: se houve sincero arrependimento e fé em Jesus foram salvos porque de tal maneira amou Deus ao mundo que deu seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna – S.João 3:16.