3. Não nos ardia o coração?

3. Não nos ardia o coração?

Enviado por Rodrigo Borges em dom, 30/03/2008 - 22:14 tags:

Lucas 24:32: Leitura dos versos 13 a 35 - Sermão pregado num dos Domingos da Páscoa.

Dois discípulos de Jesus fugiam de Jerusalém logo depois da crucificação do Mestre e estavam de volta à sua aldeia de Emaús. Tristes, abatidos e desanimados conversavam pelo caminho sobre os acontecimentos que levaram à morte o Senhor deles, Jesus de Nazaré.

Alcançou-os na estrada estranho caminhante. Aproximou-se deles e perguntou sobre o que estavam falando e introduziu-se na conversação. Abriram chorosamente o coração deseperançados com o que havia acontecido, pois esperavam que ele fosse o que deveria redimir a Israel e restabelecer o seu reino. Tinham um pequeno vislumbre, pois ouviram falar que algumas mulheres foram ao túmulo e o encontraram vazio, mas já tinham se passado três dias e não souberam de mais nada. Surpreenderam-se com os conhecimentos das Escrituras do improvisado companheiro de jornada, sentiram-se bem na sua companhia a ponto de na encruzilhada, parecendo-lhes que o novo amigo estava indo para mais longe insistiram com ele: “fica conosco!”. O caminhante ficou, entrou na casa e sentou-se com eles para a refeição. Quando, ao partir o pão e abençoa-lo, lhes deu – oh! maravilha!- Abriram se-lhes os olhos e reconheceram que o caminhante era o próprio Jesus, o Mestre querido, o qual de imediato desapareceu. Disseram um ao outro: “Porventura não nos ardia o coração, quando no caminho falava conosco”?...

1°. Arder o Coração. Alegria, prazer, segurança íntima, problemas resolvidos, em última análise: felicidade. O que é isso, felicidade? Em que está a nossa felicidade? Diz o poeta Vicente de Carvalho “que está sempre onde nós a pomos e nunca a pomos onde nós estamos”. Vai nisto um pouco de descrença, quase que dizendo que felicidade não existe...

Provavelmente os discípulos de Emaús não saberiam definir o que é felicidade, mas a sentiram e de tal maneira que disseram; “ardia os nossos corações!...” Que maravilha: a presença de Jesus ressuscitado incendeia a nossa vida, acalenta os nossos corações, tira-nos das trevas e neche-nos com a sua luz. Estavam tristes, diz o texto, e se encheram de alegria. É assim mesmo: quando Jesus caminha conosco, não há mais tristeza, não há mais desilusões, não há mais desespero, não há mais dor, não há mais gemido e nem haverá mais morte. Pois Ele, o Cristo ressuscitado, que caminha conosco, afirma: ”Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá e todo o que vive e crê em mim não morrerá nunca!

Sem Jesus, a caminhada é sombria, carregada de incertezas... Você se desespera, muitas vezes, sem saber que rumo tomar, mas Ele, Jesus, vem tirar-nos das incertezas, dizendo: ”Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida!” Agora, no caminho com Ele, jamais nos perderemos até chegarmos à vida eterna e felizes para sempre!

2°. A presença de Jesus não apenas lhes dera alegria e felicidade, mudou também, o rumo de suas vidas. Diz o texto “na mesma hora, levantando-se voltaram para Jerusalém. De lá haviam saído, tristes e amargurados, sem esperanças. A presença do Jesus ressuscitado fé-los mudar de rumo. Não mais Emaús, não mais a fuga de descrentes, não mais a inanição de quem não sabe o que fazer com a vida... Chama-se isso de conversão (metanoia) – volta para Deus, mudança completa de vida. Santo Agostinho, saído de uma vida de pecado, dizia: “Eu não sou mais eu...” Jacó, transformado por Deus, passou a ser Israel. Saulo de Tarso, depois do caminho de Damasco, é Paulo, Tomé, depois de contemplar as mãos feridas de Jesus, não é mais incrédulo, mas crente, clamando: “Senhor meu e Deus meu!” Os discípulos de Emaús sentiram esta transformação formidável, repentina e, diz o texto, ”levantando-se voltaram para Jerusalém. Ali, a Igreja que nascia, ali, o fervor epiritual dos que estavam em comunhão com o Cristo que ressuscitara; ali, a obra maravilhosa do Reino de Deus e o testemunho da fé. Triste a experiência dos que saem desiludidos de Jerusalém... quem sabe, da igreja, desiludidos com a comunidade, aborrecidos com o pastor, descrentes do Evangelho...vão ficar tristes pelo caminho, até que Jesus os encontre para traze-los de volta, onde vão achar reunidos os irmãos e a comunidade de fé.

3.° Finalmente, não há como deixar de sublinhar, no texto, o encanto dos que sentem arder o coração e suplicam ao Cristo que os animou: “Fica conosco, porque é tarde e o dia já declina”! Decrepitude do dia, decrepitude da vida, nostalgia do entardecer, saudade de um pôr-do-sol e uma noite que se aproxima... Às vezes, na solidão, sem mão amiga que os ampare... Se individualmente, direi: FICA COMIGO! Se coletivamente, FICA CONOSCO!
Individual ou coletivamente, como Igreja, não podemos ficar sem a presença amorosa, acalentadora de Jesus. Não há oração mais sublime do que esta ao Cristo da nossa fé, que nos salvou e quer o nosso bem e a nossa felicidade: FICA CONOSCO!

E qual o fundamento para uma vida nova, na fraternidade e no amor? É o fato de termos sido resgatados pelo sacrifício de Cristo na cruz, mas sobretudo porque Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória. Aqui está o fundamento seguro da fé e da esperança dos cristãos de todos os tempos. Deus fez de Jesus um vencedor e nos faz hoje também vencedores de todo o mal e toda a injustiça! Amém.

Domício Pereira de Mattos

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